Do Piauí para o mundo: Kalina Rameiro leva luxo sustentável a Paris
Kalina já participou de projetos como o A Gente Transforma, idealizado por Marcelo RosenbaumAntes mesmo de entender o significado de empreender, Kalina Rameiro cresceu rodeada por linhas e tecidos. Inspirada pelas avós crocheteiras, que sustentavam a família com o trabalho manual, ela transformou o artesanato em caminho de vida e, mais tarde, em negócio. Ainda na infância, enquanto colegas levavam lanche para a escola, ela levava criações próprias. As peças, inspiradas na cultura local, na força feminina de sua família e nas pedras de opala de Pedro II (PI), logo despertaram interesse e começaram a ser vendidas nos corredores. “Foi como se o primeiro ateliê tivesse nascido ali, entre cadernos e conversas”, lembra.

Em 2001, o talento que nasceu em pequenos experimentos ganhou forma com a fundação do Atelier Kalina Rameiro, espaço que une luxo, ancestralidade e impacto social. Hoje, as criações vão de bolsas e almofadas a joias em prata e ouro reciclado. Para este ano, os planos incluem ampliar a presença da marca, investir em inovação sustentável e participar de eventos internacionais, como o Maison&Objet, em Paris. “Estamos preparando lançamentos que unem a herança cultural brasileira ao luxo contemporâneo, além de buscar parcerias estratégicas e investimentos externos”, adianta.
Do improviso à estrutura
O início da jornada foi marcado por intuição e simplicidade. “No começo trabalhava sozinha, mas com muita dedicação e rodeada de sonhos”, recorda. Sem recursos, utilizava tecidos reaproveitados e ferramentas improvisadas. “Aprendi a valorizar os materiais, a olhar de forma criativa para o que seria descartado”, diz. Foi nesse período que surgiram peças feitas a partir de palitos de fósforo, que acabaram se tornando símbolo da marca.
Com o tempo, percebeu que a criatividade precisava andar junto da gestão. Buscou conhecimento em livros, cursos e no Sebrae, aprendendo sobre precificação, operação e organização de processos. “Cada peça era quase um ritual, mas para empreender, precisei organizar processos sem perder a essência. Esse foi o maior desafio”, explica. A evolução trouxe também a formação de uma equipe alinhada aos mesmos valores. “Não era só sobre contratar, mas sobre construir algo com legado e impacto social”, afirma.
Propósito como guia
Os desafios culturais também marcaram a trajetória, principalmente a desvalorização histórica do artesanal. “Muitos ainda viam o feito à mão como algo menor, sem espaço no mercado de luxo”, aponta. Com consistência e identidade, conseguiu mostrar o contrário. Hoje, sustenta o negócio em três pilares: propósito, gestão humana e planejamento. “Mas nada disso seria possível sem uma rede de apoio formada por família, colaboradores, comunidades e clientes”, reforça.
A preocupação vai além da estética. A sustentabilidade está presente em cada etapa, do uso de materiais ao relacionamento com comunidades locais. “Nosso processo é manual, cuidadoso e colaborativo. As peças carregam não só design e sofisticação, mas também respeito, responsabilidade e transformação.”
Em 2012, participou do projeto A Gente Transforma, do arquiteto Marcelo Rosenbaum, em Várzea Queimada, no sertão do Piauí. “Meu papel foi escutar, aprender e cocriar com as mulheres da comunidade. Compartilhei técnicas para transformar matéria-prima simples em produtos com valor e, acima de tudo, fui tocada pela dignidade com que aquelas pessoas enfrentam os desafios da seca, da escassez e do isolamento”, relata.
Mensagem às mulheres empreendedoras
A trajetória de Kalina inspira outras mulheres que desejam iniciar um negócio. Para elas, deixa um conselho: “O medo faz parte do caminho, especialmente para nós, que muitas vezes carregamos o silêncio de gerações que não puderam sonhar. Não espere se sentir pronta para começar. O empreendedorismo se constrói passo a passo, com coragem e escuta.”
Segundo a designer, resiliência, propósito e autenticidade são fundamentais para sustentar uma ideia. “O mundo precisa do que só você tem: o seu jeito, o seu olhar e a sua história”, finaliza.
Com informações da Exame